#Respeitaasmina #7: Cecília Meireles

Pra finalizar a nossa semana especial de mulheres incríveis, hoje vamos falar de mais uma brasileira fantástica: Cecília Meirelles.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no ano de 1901 na cidade do Rio de Janeiro. Órfã de pai e mãe, foi criada pela avó, e desde muito cedo, destacou-se pelo seu empenho escolar e interesse pelos livros. Foi poetisa, professora, jornalista e pintora. Também adorava música, chegou a estudar canto, violão e violino no Conservatório Nacional de Música. Por meio de uma criação solitária e muito introspectiva, Cecília viu nos estudos o seu porto seguro.

Iniciou sua carreira docente no ano de 1918 com 17 anos, quando foi nomeada professora adjunta na Escola Pública Deodoro. Preocupada com a escassez de livros didáticos, Cecília escreveu livros para escolas primárias, e publicou em 1924 o seu primeiro livro infantil com prosas chamado Criança, Meu Amor. Porém, sua estréia oficial literária aconteceu mesmo em 1919, através do livro de sonetos Espectros.

Uma das suas obras de maior destaque foi o livro Romanceiro da Inconfidência, de 1953. Nele, estão reunidos diversos poemas da autora que contam a história de Minas Gerais no inicio de sua colonização, até a Inconfidência Mineira, revolta ocorrida no fim do século 18.

“…Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda…”
(Romanceiro da Inconfidência)

Cecília Meireles

Cecília ficou conhecida por sempre defender uma escola com princípios de liberdade, inteligencia, de estímulo a observação e experimentação. Além disso, seus poemas possuem uma simplicidade e fluidez que dificilmente outros autores conhecidos (principalmente mulheres) haviam na época. Ao todo, foram mais de 60 obras publicadas, e prêmios e homenagens que seu nome carrega até hoje. Meireles morreu no mês de Novembro de 1964, vítima de um câncer.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

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Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.

Cecília Meireles

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Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

Referências: 1 | 2 | 3 | 4

O Círculo das Afluências, por Priscilla Oliveira de Souza

O estado do Amazonas é rico em biodiversidade. Sua fauna tão vasta, seus povos, sua cultura. Há também o Rio Amazonas e seus afluentes, que servem de inspiração pra muita gente. Entre elas, a nossa leitora Priscilla Oliveira de Souza.

Priscila é manauense, formada em Ciências Sociais pela UFAM, mas com um amor pela literatura que a acompanha desde pequena. Atualmente, está em fase de conclusão de seu mestrado, onde desenvolve a pesquisa intitulada “No círculo das afluências: variabilidades discursivas e percepções sobre os lagos Badajós, Piorini e Acará, município de Codajás, estado do Amazonas, Brasil”, que tem como objetivo investigar as possibilidades de deslocamento e mobilidade dos moradores que habitam o espaço social dos lagos citados.

Pisceli

Ao unir seu trabalho e conhecimento sobre os lagos, juntamente com seu amor pela literatura, Priscila descobriu seu lado poetisa, reunindo agora seus poemas no livro intitulado Círculo das Afluências, que terá sua publicação em breve.

O livro contará com 53 poemas, inspirados nas vivências da autora. Alguns poemas contam também com fotografias, registradas por ela durante seus trabalhos em campo.

Guias no brincar
Um olhar
Tanto a revelar
Imensidão de confidência
Nas vozes de pescaria
Criança eu revivia
Rotas de imaginar
Guias no brincar
Por entre caminhos de rio
Um lago a povoar
Quem conta uma história
Quem abre a memória
Quem mostra a direção
Quem demonstra a emoção
Por muito eu conseguia
Recriar nostalgia
De tempos em tempos
De completa alegria
Foi assim que eu encontrei
Respostas aos espaços
Compasso de relação amistosa
Interação de todas as horas
E assim ainda, eu, criança de outrora
Vejo inscrito em mim
Relatos que nunca vão embora.

Lílian, lago Badajós, outubro de 2007.

Céu e Água Barrenta
Quis habitar um rabisco
Quis revelar a morada
Palafita de pés bem formada
E de tudo o improviso
Céu e água barrenta
Casa minha
Casa benta
Falta isso e aquilo
Falta tanto a desenhar
Na casa em que habitamos
Mora sempre o imaginar

Casa no lago Piorini, abril de 2017.

Lindo o trabalho dela, né? Através do poema, a gente consegue se transportar pro lugar da foto, imaginando mil possibilidades para continuar a história. E, se você também quer compartilhar o seu trabalho com a gente, é só mandar um e-mail! Entre em contato!